segunda-feira, 6 de abril de 2009

97% (estou entusiasmadíssima) 98% 99% 100% de St. Vincent

Conheci a Annie pelas mãos do amor, cartas póstumas de 2054, um verde coleante soçobrado de promessas e desfechos. St. Vincent é para mim um reencontro. É voltar a sacudir o pó àquela cinza que ainda se enfia ferrada nos poros de alguma ou outra esperança. É minar os edifícios da carne que se constroem lascados de memórias entre tijoleiras de sangue. É um medo que se estica pela medula. É o confronto que se eriça desfalcado de pele. Depois, é um voltar a olhar-me de frente para o espelho, raspar a minha identidade, amarrar-me às paredes sem o resguarde daquelas noites apocalípticas. E resfriar, resfriar por de trás da abóbada decrescente das estrelas e do árctico do vazio que ficou. Ouvir St. Vincent é quase como oscilar entre a perda e o ganho de uma vida que ainda se ressente. St. Vincent ainda por desfrutar, St. Vincent a derradeira catarse. St. Vincent o recomeço do princípio.


A palavra da semana é. catarse.

(que a Annie é tão. mesmo. bonita)

post it: deixei-te a pj harvey pra semana. não quis assumir a responsabilidade.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

pecado capital número 1

não postámos o álbum dos grizzly bear.

terça-feira, 31 de março de 2009

eu sei que estou atrasada


prólogo

eu sei que estou atrasada
e podia provar que terça
é o que vulgarmente se chama
à segunda segunda-feira da semana
mas seria absurdo
desculpar-me
com outra coisa que não
aquele paralizador pecado capital
o quarto, na lista actual.

Camera Obscura - My Maudlin Career

My Maudlin Career

Este tem sido o ideal companheiro dos dias solarengos que St. Peter tem com ele trazido.
Ao ouvi-lo ocorre-me
'Que grande é a influência que a música exerce sobre o meu estado de espírito.'
Costumava pensar que era eu quem escolhia, consoante o meu humor, a banda sonora que melhor se adequasse à ocasião. Apercebo-me, não sem perplexidade, que o contrário também sucede. Posso escolher o que quero sentir. Ir buscar o disco correspondente e disfrutar do meu recém- escolhido humor. Belas, as caixinhas de pandora.
Só é pena que eu não conheça discos tão exactos para determinados estados quanto este o é, em minha consideração, para o bem-estar inerente à jovialidade adolescente e despreocupada, para tardes de verão com relva e amigos.
Não era magnífico que mais houvessem, poderosos como este, em todas as restantes direcções?
Wittgenstein considerava que o humor não era um estado de espírito mas uma visão do mundo.
Mais janelas houvessem, caro Ludwig. Mais janelas houvessem que como esta mostrassem, um mundo tão mais apetecível que esse outro, presença assídua dos ecrãs-aquário das televisões por todo o lado.
Há visões do mundo abençoadas. A dos Camera Obscura é, e eles fazem falta na vida da gente.

quinta-feira, 26 de março de 2009

momento de tertúlia astral aham.


foreign accents. então é isso.

anisotrópica ide ver o teu.

segunda-feira, 23 de março de 2009

planetas alinhados, corações num desalinho.



Foi como atingir uma galáxia de cores leitosas e astros hexadecimais, foi como voltar à infância e mastigar com os dedos esferovite e bolhas de ar. Os dentes arpeados num metalofone curvado entre os beiços, a íris farta de luz e chispas e achas e um fio de vazio serpenteado no firmamento. E de repente. A intranquilidade das estrelas, siderais e gasosas, estrelas póstumas de sossego no semblante cativo da noite. E de repente. Um verde amarelecido pelo Sol, o olhar vagaroso nas pálpebras fechadas de estranhos, um percorrer com as mãos a terra desfeita em poros secos. Atingir aquela galáxia longínqua e sentir-me a falta, redescobrir que sou, que sou, que sou isso. Pó liquefeito em pedaços de pó e palavras inventadas. E depois. Depois imaginar a Sarah Neufeld envergando um vestido cintado como um sabre, a cor láctea e flamejante do cosmos, a Sarah Neufeld repercutindo o fim e o princípio numa ária de madeira, a Sarah Neufeld ziguezagueando entre as cordas maciças, a Sarah Neufeld encavalitada nas suas próprias mãos de chama. E eu. E a Sarah Neufeld. Com o seu ar de criança nórdica, fugaz como um astro que desenterra do instrumento centelhas brancas e éguas negras. E antes. Antes acordei. E o Jacinto do Eça desassossegado nos seus dias maçudos e cavernais. E o universo, aqui, na gaveta à espera de acontecer. E eu. Eu não sei. A parir quimeras e equinócios porventura.

Que nos seja bondosa esta semana. Janelas abertas astronautas. Bon voyage.

Bell Orchestre em As Seen Through Windows


domingo, 22 de março de 2009

friendship never ends.

Até parece mal não postar nada quando a palavra-chave é amigos. A Ritinha palito push up fez anos ontem, ou então era a Susana. Uma delas fazia anos no equinócio. Até parece mal ninguém falar de quando toda a miúda se pelava com o Mark Owen e nós olhavámos de soslaio o Jason Orange. E agora na verdade a malta gosta é de laranjinhas, and when i say laranjas, i mean gomos suculentos de laranja, cascados devagarinho com a pele branca desfraldada. Now that's sound pervert. In a good way. E aquele cd verdão, o single dos Garbage, I think i'm paranoid, foi a nossa primeira banda. Seguidamente às tardes dos baloiços e dos pinheiros, onde eu namorava o BLEEP e tu namoravas o BLEEP e, no entanto, todas nós gostávamos do Leonardo, ahhhhhhh a tragédia! os Roxette, listen to your heart e aqueles calipos baratões que sabiam a cola e a menta. Depois descobrimos o Dry da Pj Harvey oferendado pela minha irmã. Romântico. E vimos o The Hours juntas e passámos essa noite em Monte Gordo a tripar com um número de telefone que estava num sinal de trânsito, ainda lá está. E depois as limusinas e o Dante e as raquetes e os insufláveis e a relva e os mergulhos na areia e os pasteis de nata e as tartes de amêndoa. Croissants da flash! E vamos fazer um quarto de século. E é assustador. E tenho pensado muito acerca da minha retinente perversão social, que significa, inabilidade de me projectar noutros parâmetros de carne e osso que me assimilem palavras de conforto q.b. E depois, às vezes, penso, vou terminar com 77 anos e casa atolada de animais de pelúcia que miam ou ladram ou chilram ou nadam. E depois vou pensar em ti, prostrada na mata por trás do estádio ou a ser levada por um carro enquanto o retrovisor fende no meu rabo, way to go! E vou pensar, não importa, não importa mesmo, definitivamente. As coisas só importam em demasia no preciso momento em que acontecem. Podemos rir. E daqui por outro quarto de século, o que agora nos parece hediondo e avassalador é só uma gargalhada abafada porvir, um burburinho do quão ridículas somos. Mas lá chegaremos. Lá chegaremos. Eu tu. E os meus animais urbanos de pelúcia. Entre outros amigos que fielmente se mantém apesar dos apesares karmicos. *drama button*


sábado, 21 de março de 2009

redefinição




boy
hey I was wondering if you had plans for --- holy crap!
what happened to your apartment?

girl
I filled it playpen balls!

boy
I... what? why?

girl
because we're grown-ups now and it's our turn
to decide what that means.



por: xkcd

segunda-feira, 16 de março de 2009

A Emily Haines apareceu-me num sonho

Algumas bandas são como velhos amigos especiais. Quando os reencontramos, anos passados de lhes termos perdido o rasto, sentimo-nos tão confortáveis na sua companhia como dantes. Não tememos julgamentos de valor nem sentimos necessidade de usar camuflagens. Nem pensamos nisso, aliás. Aliado ao prazer do reencontro há o prazer da descontracção que é podermos ser quem somos com quem nos conhece. E depois, depois passeamos a noite toda, pomos a conversa em dia, rimos e damos um mergulho no mar, à noite, em honra dos bons velhos tempos. para nos despedirmos prometendo que reataremos contacto.


- Summer is here again... Are we really getting old, little sis?








Esta noite reencontrei os Metric. Foi um prazer.

sexta-feira, 13 de março de 2009

as cartas e a solidão do senhor ou senhora peres.

Esta semana recolhi da minha rua 22 cartas, não vou entrar em pormenores circunstancias e metodológicos. Vou deixar parte de dois exemplares e poupar a história.

O trevo e as flores de um final feliz
Um circuito variado de pistas

estão enumeradas, são mais de mil. e andam por ai nas ruas geográficas de um Portugal já quase marroquino, dentro de caixas de correio deixadas ao acaso.

segunda-feira, 9 de março de 2009

os pequenos infernos de Marissa Nadler.



Ela levantou o auscultador-estetoscópio do meu peito, eu falei:

    Escuta, eu quero passar o resto da vida abeirada na ponte japonesa que arqueia ao fundo dos nenúfares, entre aquelas flores híbridas, água cansada no reflexo roxo vivo de sol. É esse o meu lugar, um jardim liquefeito em motins de luz púrpura, uma vida e um só amor, calada no desassossego dos estranhos. Eu tenho uma vida inteira por dedicar, a alguém, a algo. Tantas palavras difíceis que não sei dizer de um modo mais sincero. Ouves-me?

    Giverny e os jardins de Monet?

    Giverny ao abrigo do teu coração. Giverny. Giverny na ponta dos pés no alto do teu beijo. Giverny nos teus olhos aos pedaços de níquel e purpurina. Eu quero engolir as palavras e morrer em silêncio. Eu não quero mais nada. Quero tão pouco. Entendes-me?

    Devagar.

    Não. Agora. Para sempre. Tudo. Inequívoco. Sem língua ímpar de sílabas aguerridas a par e passo. Agora. Descalça de boca e mãos truncadas. Compreende.

    E eu?

    Tu e eu. Nos jardins e na casa que deus fez à semelhança do seu fim.

    E morreremos juntas?

    Mortas só o que a terra cobrar ao osso e à carniçaria dos bichos.

    E o medo, e a solidão, e a ilusão, e a expectativa, e o depois e quando e tanto e antes e se o rio estancar no verdume das rochas desfeitas em palacetes de papel?

    Eu voltarei com a chave levada ao peito e a palavra apalavrada de promessa.
    Eu voltarei abandonada de solidão no levante dos teus braços.
    Eu regressarei para ti. Sempre.

Ela poisou a voz na côncava do meu fôlego e amá-mo-nos aos segredos de nada.
Para sempre é a palavra que a solidão consente.


(um álbum que me faz retirar a two weeks dos grizzly bear, é uma senhora de um álbum. para morrer devagarinho aos pedacinhos, com muito carinho)

domingo, 8 de março de 2009

«nobody thinks about death in the supermarket»

O tempo é uma locomotiva de poros ardentes, espirais que se comovem no céu em centelhas de pele, branco que arde no alto das cópulas verdes. Relâmpagos de árvores e ânforas de papel, o tecto dos teus olhos preso para sempre aos ladrilhos das minhas mãos. O tempo é um neologismo moderno, duas premissas cariadas no chumbo da boca, negro que vaza no tormento da casa. O tempo, meu amor, o tempo sem mais tempo. O tempo, meu amor, o tempo sem outro tempo. A escassez do nada no telhado do corpo, pó e fumo, cinza na ladeira dos dentes. A cadeira, a janela, a sola de borracha na carne da soleira de madeira. O tempo espera, meu amor, mas nós, nós nunca meu amor. À noite, o amor condescende entre as orlas cinzentas do teu cabelo, à noite e só de noite, o amor ilumina os fotões de água no orvalho do parapeito. Depois, a manhã leva-nos a alma à hora crepuscular do vazio. E o tempo, a quem escreve, a ninguém meu amor. Que nos sobrem apenas os segundos arborescentes que duram a eternidade ínfima da alvura verde dos teus olhos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

psicolOST


Fechar as portas ao mundo porque o mundo está mais fodido do que nunca

(Ou porque eu estou mais atenta do que nunca aos sarilhos em que o mundo se meteu Ou os sarilhos do mundo são os meus próprios)

E esquecer que existo neste tempo de agora, esquecer que existo num tempo que não é meu

Esquecer que preferia ter nascido há umas tantas décadas atrás, quando tudo era excitante,

as revoluções estavam por fazer e os verdadeiros génios por nascer

E no enquanto de tecer considerações sobre ... deixar este álbum a derramar das colunas da aparelhagem,

muito alto, líquido.



odawas - the blue depths (2009)


Fechar então os olhos depois de fechadas as portas

e pensar que talvez nesse outro tempo pudesse haver um lugar para mim,

que talvez fosse possível eu fazer parte dessas tais revoluções que talvez fosse passível de se fazer ouvir

a minha voz ?

Porque nascer noutro tempo significaria ser outra (e era isso que era preciso)

Esquecer a família em que nasci e deixar de me perguntar porque não me ensinaram tantas coisas que me fazia falta ter sabido antes

Esquecer a mágoa de ter que me construir de raiz já que isto que vou sendo não combina com este tempo

Esquecer o tempo de vez, deixar de pensar de vez no tempo, ponto final no tempo.

O meu tempo não é mais o tempo de ninguém

E no enquanto de tecer considerações sobre ... o som a escorrer das colunas da aparelhagem como água

como água a aumentar de nível

como água a elevar a mobília como água a afogar o gato. Como água.

E eu alheia a tudo OH! pela liberdade de não saber de nada

e OH! de já não ter memória e de não ter já consciência.

E nesse estado flutuante entraria num outro lugar do lado de lá de mim.

Ao reparar no meu corpo - lá deitado - numa mesa

no meu ser dissecado por milhares de folhas de cálculo cheias de equações espalhadas em redor

Sentar-me-ia e começaria pacientemente a aprender-me pra me construir.

Para me fazer caber neste tempo de agora

poria cada pergunta no seu lugar devido.

As que se respondem com a força da acção de um lado; as que se respondem com Amor, de outro; aquelas a que se responde provisoriamente só para que viver seja possível, doutro.

Na manhã seguinte quando despertasse, ao contrário do óbvio não teria sido só um sonho.


E então já podia ser tudo o que desejasse porque sabia como.

E por não ter como pedras perguntas a encalhar-me nos pés.